O caráter do discípulo – Parte I





O chamado do Mestre

Jesus iniciou sua atuação pública de forma impressionante. Após passar pelo batismo e pela tentação no deserto, ele começou seu ministério ensinando, pregando e curando, como vemos no registro do evangelista Mateus:

Jesus foi por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Notícias sobre ele se espalharam por toda a Síria, e o povo lhe trouxe todos os que estavam padecendo vários males e tormentos: endemoninhados, epiléticos e paralíticos; e ele os curou.” (Mt 4.23-24) (com grifo).

Em meio às aflições, dramas, males e tormentos vivenciados por muitos, Cristo surgiu operando sinais extraordinários e trazendo cura. A esperança irrompeu em meio ao sofrimento e a alegria visitou corações que antes viviam um cotidiano de tristeza e dor. Tente imaginar, ao ler o texto bíblico acima, o impacto gerado naqueles que padeciam enfermidades, e também nas pessoas envolvidas de alguma forma com aquelas situações! É magnífico! O efeito não poderia ser outro, senão o descrito por Mateus no versículo seguinte:

Grandes multidões o seguiam, vindas da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e da região do outro lado do Jordão.” (Mt 4.25)

Entre as pessoas que acompanhavam tais feitos, existiam aquelas que estavam interessadas em algo mais do que simplesmente o alívio de suas dores. O ministério de Cristo não foi marcado somente por feitos maravilhosos, mas também pelo ensino, como registra Lucas ao falar sobre o evangelho que escreveu: “em meu livro anterior, Teófilo, escrevi a respeito de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar” (Atos 1.1 – com grifo). No texto citado inicialmente nesse artigo lemos também que Jesus ensinava e pregava.

Seguindo o texto do evangelho de Mateus, lemos:

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo” (Mt 5.1-2)

O que será que Ele diria agora? Em um contexto de sinais tão extraordinários, o que Cristo ensinaria aos que desejavam segui-lo? Será que Ele diria que a partir de então não haveria mais choro, fome, injustiças, lutas e perseguições? Com tamanho poder manifesto, alguns devem ter imaginado que segui-lo significaria uma vida sem aflições e dores. O que Ele disse, então?

O que segue no registro do evangelista é conhecido como o Sermão do Monte. Nesse trecho, encontrado nos capítulos 5 a 7 do evangelho de Mateus, Jesus dá diversas instruções sobre o caráter do discípulo. Ele dirige seu ensino aos seus seguidores que se aproximaram dele para ouvir suas orientações (Mt 5.1). Em um relato muito semelhante feito por Lucas, lemos: “olhando para os seus discípulos, ele disse…” (Lc 6.20a).

O pastor e escritor John Stott afirmou(1): “o Sermão do Monte é a descrição mais completa do Novo Testamento a respeito da contracultura cristã. Aqui se encontra um sistema cristão de valores, um padrão ético, a devoção religiosa, a correlação com o dinheiro, o estilo e uma rede de relacionamentos – todos completamente opostos ao mundo não-cristão.” Também afirmou sobre o mesmo texto: “em todos os momentos, Jesus ensina seus seguidores a serem diferentes – diferentes tanto da igreja nominal quanto do mundo secular, diferentes dos religiosos e dos irreligiosos”.

Pelo descrito acima, já podemos perceber que o discurso de Jesus aos seus discípulos não tem como tônica a ausência de sofrimentos nesse mundo, o engrandecimento pessoal, ou o fim de todos os problemas do homem, mas apresenta o significado do discipulado cristão em meio a um mundo hostil e perverso. Após realizar tantos sinais miraculosos, Jesus conclama seus seguidores a serem diferentes do mundo secular e da religião vazia, vivendo outros valores, outra ética e outros padrões de relacionamento com Deus, com os demais e com o mundo que os cerca!

Esse artigo dá início a uma série sobre o Sermão do Monte, quando meditaremos brevemente sobre o ensino de Cristo nesse importante trecho das Escrituras Sagradas. Mas, desde já, sugiro algumas reflexões: será que estamos como a multidão, indo a Cristo pelo que Ele pode fazer por nós, ou como os discípulos, que se aproximaram dele para ouvi-lo? Será que estamos dispostos a seguir O CHAMADO DO MESTRE mesmo que isso implique em abrir mão de valores seculares pelos princípios do Reino de Deus?

Que o Senhor nos ajude a viver de modo digno do evangelho!

Notas:
1) Extraído da revista “Sermão do Monte”, de John Stott (Shedd Publicações) – Pág. 6

Felipe Lydia
Juventude ICNV Freguesia
felipe.lydia@icnvfreguesia.org.br

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  1. O Caráter do Discípulo – Parte II
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Discussão1 Comment

  1. Carlos Stopp disse:

    Recordar também é viver. Muitas vezes reaprender e acertar o rumo da vida pessoal na jornada cristã. Por isso a carreira de discipulado é uma constante reaprendizagem para o aperfeiçoamento de cada um de nós na fé, até que o caráter de Cristo seja gerado e formado em nós pela ação do Espírito Santo através das Escrituras Sagradas e da vida de comunhão com os irmãos, sendo a Igreja de Cristo.

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