O caráter do discípulo – Parte II





A felicidade segundo Jesus Cristo

Como vimos no artigo anterior dessa série, o Sermão do Monte foi ministrado por Jesus àqueles que desejavam segui-lo, indicando como deve ser o caráter dos seus discípulos. Logo no início do sermão, Cristo apresenta as bem-aventuranças (Mt 5.1-12), oito características que refletem o perfil daqueles que verdadeiramente dedicam sua vida ao Senhor. Não encontramos ali um cardápio de opções, do tipo “posso escolher algumas características e negligenciar outras”, mas sim um conjunto completo, um padrão excelente, uma descrição de como devem ser as mais íntimas percepções do cristão acerca de Deus, de si mesmo e do próximo! E isso é bem diferente da felicidade segundo o sistema do mundo em que vivemos…

Identificamos um padrão no texto em questão: Jesus sempre começa com bem-aventurados e encerra com uma promessa.  “A palavra que Jesus usou para bem-aventurados é makarios. Refere-se ao mais elevado bem-estar possível para o ser humano” (1).  A partir da compreensão dessa palavra e da certeza do cumprimento das promessas, feitas pelo próprio Deus encarnado, o que podemos esperar? Ouvir que são felizes os que tem muitos bens, os que vivem sorrindo, os que sabem impor sua autoridade e vontade? Ou talvez os espertos e maliciosos, que sempre estão criando situações para favorecimento próprio, os justiceiros, arrogantes e os que se alegram com intrigas? Em nossa sociedade decaída, pessoas como essas são muitas vezes consideradas felizes.

Mas, como em todo o sermão, Jesus apresenta uma oposição aos padrões do mundo em que vivemos! Ele indica como bem-aventurados aqueles que manifestam em seu íntimo sentimentos considerados indignos por muitos! E também indica promessas maravilhosas! “Único de todas as pessoas da terra, Jesus tinha realmente vivido ‘do outro lado’, e aquele que desceu do céu sabia bem que os despojos do reino dos céus podem facilmente contrabalançar qualquer miséria que possamos encontrar nessa vida” (2).

Ele começa falando sobre pobres em espírito, sobre aqueles que reconhecem sua total dependência de Deus! A pobreza material implica na ausência daquilo que é mais essencial ao ser humano, como alimento e vestimentas, por exemplo. A pobreza em espírito é o reconhecimento que não temos condições de suprir nossas necessidades espirituais (e até materiais…) sem o socorro do alto! Sem o favor de Deus, nada somos ou podemos fazer!

O reconhecimento do pecado que nos aflige leva-nos à segunda bem-aventurança. Ao reconhecermos nossas fraquezas, somos levados a chorar pela nossa maldade, e também por vermos o efeito devastador do mal na vida do nosso próximo. E tudo isso deve levar-nos à mansidão, a uma resposta adequada às muitas situações desagradáveis que surgem em nossas vidas. Ao reconhecermos nossa dependência profunda de Deus, e também a maldade de nossos corações, ficamos mais preparados para compreender o próximo em meio ao drama da condição humana,  agindo com humildade e reagindo com mansidão diante das dificuldades da vida.

Por mais que reconheçamos que vivemos em um mundo hostil, sujeitos à maldade do ser humano e das hostes de Satanás, precisa haver em nosso íntimo  fome e sede pela justiça de Deus! John Stott afirma que devemos ansiar pela justiça em três aspectos: legal, moral e social. A justiça legal trata de nossa justificação, de ansiarmos por um relacionamento correto com Deus, fundamentado na obra de Cristo a nosso favor. A justiça moral trata de uma conduta que agrada a Deus, do desejo por crescimento em santidade, manifestando aspectos do caráter santo de Cristo em nossa vida. E por fim, a justiça social, o desejo pelo fim (ou ao menos pela redução) da opressão vivida pelos homens, o que inclui termos atitudes que promovam benefícios ao nosso próximo (3).

E Jesus segue dizendo “bem-aventurados os misericordiosos”. Como destaca John Stott, “na segunda metade das bem-aventuranças, nós nos voltamos ainda mais de nossa atitude para com Deus à nossa atitude para com nossos semelhantes, começando com a misericórdia” (4). Nossa maior motivação para sermos misericordiosos é pensarmos como Deus é misericordioso conosco! Com alguém disse, Deus demonstra misericórdia em não recebermos o que merecemos por nossos pecados – a condenação; e sua graça, seu favor imerecido, em recebermos o que não merecemos – sua maravilhosa salvação! Como aprendemos com a parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35), nós recebemos de Deus o perdão de uma dívida que não poderíamos pagar, o que deve levar-nos a perdoar aqueles que nos ofendem e a sermos misericordiosos com aqueles que fizeram algo contra nós ou com quem simplesmente temos a oportunidade de exercer misericórdia.

E o que dizer da pureza de coração? Em nossa sociedade pessoas são exaltadas por sua malícia, e muitos vivem mentiras engenhosas em suas vidas! A mídia exalta a sensualidade, e a falsidade impera em muitos relacionamentos. Mas Jesus nos chama à pureza, tanto no sentido de vivermos uma vida transparente, sem máscaras e duplicidades, quanto em nos guardarmos em Deus de tanta impureza e malícia que nos cerca! Como lemos nas Escrituras: “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).

Bem aventurados os pacificadores”. Muitas intrigas que vemos em nossa sociedade, desde escândalos na televisão a problemas no cotidiano do trabalho, seriam evitados se pessoas ouvissem e cressem nessas palavras de Cristo! Como seus discípulos, somos felizes por trazermos paz, e não por pormos “lenha na fogueira”! Temos paz com Deus (Rm 5.1) e devemos ser portadores da sua paz, rogando aos homens que se reconciliem com o Senhor (2 Co 5.20) e também uns com os outros! Como diz Paulo em Rm 12.18: “Façam todo o possível para viver em paz com todos.”

Assim, tendo o caráter que Cristo estabelece para seus discípulos, o que devemos esperar de imediato? Que os homens nos exaltem por nossa humildade, valorizem nossa pobreza em espírito, ajam com misericórdia conosco como devemos agir com eles? Cristo não nos garante isso. Assim como aconteceu com profetas do Antigo Testamento, uma vida consagrada a Deus implica em perseguição (ver 2 Tm 3.12). Mesmo que não enfrente perseguição física, com prisões e açoites, um verdadeiro discípulo de Cristo sofrerá oposição do sistema mundano, que é contrário ao que Deus estabelece para nós, uma vez que tal sistema é hostil ao próprio Deus! Mas isso não deve ser motivo de tristeza, e sim de alegria; de felicidade segundo Jesus Cristo, e não segundo os padrões desse mundo!

E as promessas? Jesus diz que esses que tem o caráter descrito no texto de Mt 5 são bem-aventurados, e que desses é o Reino dos Céus! Serão consolados, receberão a terra por herança, serão satisfeitos em sua necessidade de justiça, obterão misericórdia, verão a Deus e serão chamados filhos de Deus! Olhando somente as promessas, parece óbvio pensarmos que serão muito felizes mesmo! Por exemplo, parece mais fácil ser manso diante das dificuldades que surgem em nossas vidas se entendermos que a terra será recebida por herança! Mas há um caminho, uma jornada, e tais promessas serão experimentadas em parte aqui, mas plenamente somente no fim, na glória eterna do Senhor!

“Em uma vida caracterizada pela pobreza, pelo luto, pela humildade, pela fome de justiça, pela misericórdia, pela pureza, pela pacificação e pela perseguição, o próprio Jesus encarnava as bem-aventuranças” (5)

Essa frase resume o propósito maior de tudo o que foi escrito até aqui. Vivermos as bem-aventuranças, em última análise, significa vivermos de acordo com o propósito para o qual fomos criados, ou seja, sermos à imagem e semelhança de Deus, expressa em Jesus, o Filho, que é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hb 1.3a).

Que Deus nos abençoe, e que possamos refletir algo da excelência do caráter de Cristo, cumprindo o propósito de sermos sal e luz nesse mundo, assunto que será tema do próximo artigo dessa série.

Notas:

(1) Fome de Deus – Hernandes Dias Lopes – Ed. Hagnos - pag. 88
(2) O Jesus que eu nunca conheci – Philip Yancey – Ed. Vida – pag. 116
(3) Observar o excelente comentário do Rev Hernandes Dias Lopes sobre fome e sede de justiça no livro Fome de Deus (Ed. Hagnos) – pag. 74 a 78
(4) Revista As bem-aventuranças – John Stott – Ed. Cultura Cristã – pág. 36
(5) O Jesus que eu nunca conheci – Philip Yancey – Ed. Vida – pag. 135
(6) Parte desse artigo foi baseado na excelente série de mensagens ministrada pelo Pr John McAlister na Catedral das Igrejas Cristãs Nova Vida e em mensagem ministrada pelo Pr André Cunha na Igreja Cristã Nova Vida da Freguesia.

Felipe Lydia

[email protected]

Outros artigos desta série:

  1. O Caráter do Discípulo – Parte I
Compartilhe você também!
 

Discussão1 Comment

  1. Renan disse:

    Que venham as perseguições, pq depois do q Jesus fez por mi, não há nada q Ele me peça q eu não farei pelos perdidos!!!

Envie seu comentário