A soberania de Deus na vida de Agostinho





“Dê-me graças [Ó Senhor] para fazer o que ordenas, e ordena-me a fazer o que tu queres! Ó santo Deus (…) quando teus mandamentos são obedecidos, é do Senhor que recebemos o poder de obedecê-los”
Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430)

Quando lemos as obras deste que é um dos maiores pensadores e teólogos que já existiu, notamos que é exatamente o oposto que vemos em nossa sociedade (e até mesmo na maior parte da Igreja) no século XXI.

Era filho de uma cristã muito piedosa e de vida de oração e comunhão profunda com Deus, Mônica, e de um pai cético (convertido pouco antes de sua morte). Viveu uma vida de lascívia e promiscuidade até que recebeu o chamado eficaz e irresistível de Cristo, para quem dedicou todo o restante de sua vida.

Agostinho foi bispo de Hipona, escritor, orador, teólogo e filósofo, além de um dos mais influentes cristãos de todo o ocidente. Foi fortemente influenciado pelo Maniqueísmo1 inicialmente, contra qual combateu veementemente no restante de sua vida, assim como as heresias dos donatistas2 e de Pelágio3. Tinha um grande apreço pela filosofia grega, principalmente o platonismo4. Mas nada o influenciou mais do que os escritos de Paulo e o restante das Sagradas Escrituras.

Defendeu, em sua soteriologia5, que todos os seres humanos nascem culpados e corrompidos (devido à queda em Adão), consequentemente sem a capacidade de não pecar. São, portanto, incapazes de se voltarem para Deus, e caminham naturalmente para a perdição eterna. Mas por obra de sua graça, Deus nos salva desse caminho colocando seu amor, fé e arrependimento em nossos corações, o que nos faz seguir uma vida piedosa e virtuosa em gratidão, e nos leva a glorificá-lo e adorá-lo! Portanto, para Agostinho, Deus predestina e ordena tudo o que acontece!

Hoje em dia, vivemos em uma sociedade caracterizada pelo antropocentrismo, onde Deus é apresentado como mais um dos acessórios que o homem pode adquirir para satisfazer seus desejos, suas vontades e prazeres egoístas. Por isso a vida e a obra de Aurelius Augustinus nos ensinam coisas tão importantes para os dias de hoje.

Agostinho viveu, pregou e escreveu com a finalidade de se confessar pecador e proclamar a soberania divina, o livre amor de Deus e sua graça irresistível. Ele foi um dos primeiros, depois de Paulo, a entender que estávamos de fato mortos e, a menos que Deus usasse de misericórdia, estávamos perdidos. Ele entendeu que Cristo é quem deve receber todo o mérito, porque dele, por ele e para ele são todas as coisas, ele é o alfa e o ômega e por causa de sua vontade todas as coisas foram criadas e vieram a existir6.

Larguemos nosso discurso orgulhoso e depositemos toda honra e glória ao único que é digno, o Deus de quem procede toda a decisão.

Principais obras:
Confissões, Cidade de Deus, Da natureza do bem, Sobre o batismo, Da natureza, Do livre-arbítrio, Do Espírito e da letra, Da natureza e da graça, Da graça de Cristo e do pecado original, Da graça e do livre arbítrio e Da predestinação dos santos.

  1. Maniqueísmo: Movimento religioso Persa fundado por Mani (c.216–270) segundo o qual o bem (luz) e o mal (trevas) são dois poderes iguais e eternos em constante luta (dualismo). Exaltava o ascetismo. Foi abraçado e depois combatido por Agostinho.
  2. Donatismo: Movimento cristão separatista dos séculos IV e V, no norte da África, que defendia a idéia da igreja pura (trigo sem joio) e do sacerdócio puro. Combatido por Agostinho. Entre seus líderes iniciais estava o bispo Donato.
  3. Pelagianismo: Posição defendida pelo monge britânico Pelágio (c.354-c.420), segunda a qual o ser humano tem pleno livre-arbítrio para fazer o bem sem o auxílio da graça divina. Combatido por Agostinho e condenado pelo concilio de Éfeso (431).
  4. Platonismo: Pensamento do filósofo grego Platão (428-348 a.C.) que dava ênfase à realidade ideal em contraste com a empírica ou sensorial. Passou por várias fases (médio platonismo, neoplatonismo) e exerceu grande influencia sobre a teologia cristã.
  5. Soteriologia: Área da teologia que estuda a doutrina da salvação (em grego, soteria).
  6. Rm 11.36; Ap 1.8, 4.11.

Fonte de consulta dos significados: Fundamentos da teologia histórica/ Alderi Souza de Matos – São Paulo : Mundo Cristão, 2008. – (Coleção teologia brasileira).

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Discussão4 Comments

  1. Stopp disse:

    Sim, Agostinho, um dos pais (“padres”) da igreja dos primeiros 3 séculos foi e continua sendo marco importante da fé e entendimento da doutrina cristã como temos conhecido ao longo dos séculos e o presente tempo também. Nascido no norte do continente africano, onde predominou influência de povos mouros, seu temor a Deus e serviço a Igreja combatendo as heresias por uma fé correta segundo as Escrituras Sagradas continua sendo um exemplo a ser seguido de cristão verdadeiro. Da linha doutrinária de Agostinho veio séculos depois várias linhas cristãs, onde uma de predominância foi o Calvinismo, porque a Graça de Deus quando elege e alcança alguém para a Salvação é considerada irresistível e irrecusável. Mas isto já é tópico pra outro tipo de discussão.

    • Maycon Maia disse:

      Obrigado pelo comentario, meu irmão!

      Acredito ser essa exatamente a doutrina que Agostinho acreditava e pregava e não uma linha doutrinaria da qual surgiram outras linhas…

      Simplificando ao extremo, a ponto de parecer ter outro sentido, graça irresistível seria isso!

      Mais especificamente, a graça é irresistível a partir do momento que Deus deseja que ela se torne… Nós vivemos resistindo a ele, até que Deus se faz irresistível a nossos olhos e não queremos mais nossa vida de pecados e prazeres carnais, mas ele acima de tudo! Queremos viver para ele/nele e morrer para ele/nele! O que isso quer dizer é que àqueles a quem Deus escolheu necessariamente aceitarão sua graça, e isso, não porque se chegarão a ele, mas porque ele os traz a tornando irresistível! Ou, nas palavras de quem sabe explicar muito melhor que eu:

      “Ele pode fazer Cristo parecer tão atrativo, que nossa resistência é quebrada e livremente vamos a ele e o recebemos e cremos nele!”

      John Piper – (http://www.youtube.com/watch?v=97Ux7S50zAI)

      Abração!

  2. Felipe Guimarães disse:

    Fiquei impressionado hoje pela manhã, quando o Pr. Roberto leu sobre a conversão de Agostinho. Uma verdadeira batalha contra a carne. Me fez lembrar do trecho de Hebreus 12.4

    “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue”

    Parece mesmo que as vezes somos levados até o limite, e em muitos momentos pensamos em jogar a toalha e desistir, ou quem sabe, até já jogamos. A verdade é que cansados ou não, pensando em desistir ou não, o nosso Pai faz um convite maravilhoso:

    Mt 11.28-30
    “11.28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
    11.29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
    11.30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.”

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